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Publicada em 18-04-2025

Abril, mês agitado no ecossistema de IA

Especialistas americanos em inteligência artificial (AI) parecem ter uma visão muito mais otimista sobre a tecnologia do que o público leigo: 56% dos especialistas, contra 17% dos leigos, acreditam que a IA terá um impacto positivo ou parcialmente positivo nos Estados Unidos nos próximos 20 anos; além disso, 51% do público leigo, contra 15% dos especialistas, declara estar mais preocupado com deepfakes, desinformação, demissões e preconceitos, do que animado com a tecnologia. É interessante observar que quase 80% dos especialistas consideram que as pessoas usam IA com frequência, enquanto apenas 27% do público leigo acredita que interage com a IA neste ritmo. Essas são algumas das conclusões do estudo do Pew Research Center (Pew), que entrevistou 5.410 leigos e 1.013 especialistas (3 de abril de 2025).

A maior diferença entre percepções foi em relação aos empregos e à economia: 73% dos especialistas apostam em impacto muito ou relativamente positivo no trabalho, contra apenas 23% do público leigo; 69% dos especialistas acreditam que a economia se beneficiará da IA, contra 21% dos adultos americanos. Para os americanos, o futuro parece sombrio, com 83% descrentes de que a IA os tornará mais produtivos, e 94% descrentes de que ela os tornará mais felizes; apenas 13% dos americanos acreditam que chegarão ao ponto em que confiarão na IA para tomar decisões por eles. O Pew identificou pontos comuns entre especialistas e leigos, como a preocupação com o impacto negativo sobre eleições, baixa confiança na regulamentação pelo poder público e no empenho da indústria pela IA responsável.

As discrepâncias estão igualmente presentes nas autoridades, com a Europa e os EUA avançando em direções divergentes em estratégias e regulamentações da inteligência artificial, com impactos geopolíticos. A Comissão Europeia deu um passo crucial em sua estratégia para fortalecer a competitividade do bloco em inteligência artificial. No dia 9 de abril, lançou o "Plano de Ação da IA para o Continente”, estruturado em cinco pilares, comprometendo-se a mobilizar € 200 bilhões (US$ 219 bilhões) em financiamento para IA, sem especificar a origem dos recursos.

1. Infraestrutura computacional

- Fábricas de IA: €10 bilhões em investimentos (2021-2027) para 13 unidades até 2026, focadas em ajuste e treinamento de modelos;

- Gigafábricas de IA: €20 bilhões em investimentos para desenvolver modelos complexos (4x mais potentes), com meta de 5 unidades;

- Nuvem sustentável: Triplicar a capacidade dos data centers da UE em 5-7 anos, com foco em eficiência energética.

2. Dados e regulamentação

- Laboratórios especializados nas Fábricas de IA filtrarão dados de alta qualidade para empresas e governos;

- Simplificação da Lei de IA, incluindo um “Service Desk” (previsto para o verão de 2025) com orientação jurídica gratuita.

3. Talento e adoção

- Parcerias internacionais de recrutamento, bolsas de estudo e centros de requalificação digital;

- Aceleração da IA em saúde, automotivo e manufatura, com apoio técnico à empresas e ao setor público.

Desde o ano passado, a UE enfrenta pressões para flexibilizar a Lei de IA (AIAct). Em setembro, o Gabinete Europeu de IA iniciou a elaboração do “Código de Práticas” - um manual para adaptar a lei aos modelos de IA de uso geral, que entrará em vigor em agosto de 2025. O grupo de especialistas responsável pela elaboração do Código, incluindo o premiado Yoshua Bengio, busca equilibrar rigor regulatório e viabilidade técnica, sob críticas de gigantes como Meta e Google. Joel Kaplan, da Meta, alertou para “requisitos inviáveis”, enquanto empresas europeias como Ericsson também manifestaram preocupações.

No mesmo dia do lançamento do plano, deputados-chave - como a ex-ministra espanhola da Digitalização, que liderou as negociações entre os estados-membros da UE, e o alemão Axel Voss, um dos mais ativos nesse processo - enviaram uma carta à Comissão Europeia acusando o Código de enfraquecer salvaguardas essenciais da lei, beneficiando grandes players. O texto destacou riscos de desalinhamento na avaliação de riscos sistêmicos e rejeitou o argumento de que a falta de consenso justificaria retrocessos.

Ainda em 9 de abril, o Escritório de Inteligência Artificial da Comissão Europeia abriu uma consulta pública, que se encerra em 4 de junho, sobre sua “Estratégia de Aplicação da IA” - com publicação prevista para o final deste ano -, visando identificar prioridades, desafios em setores específicos e potenciais soluções e abordagens políticas. Essa consulta pública está sendo percebida por parte dos especialistas como uma busca por subsídios para simplificar a Lei de IA.

Em mais uma iniciativa, em 15 de abril, a Comissão Europeia lançou quatro chamadas de financiamento para projetos no âmbito do Programa Europa Digital: 55 milhões de euros em projetos de IA generativa para administração pública e setor agroalimentar; 27 milhões de euros para promover competências digitais em tecnologias essenciais, incluindo IA; 11 milhões de euros para projetos de expansão dos “Polos Europeus de Inovação Digital”, incluindo a IA; e 47 milhões de euros para acelerar a implantação e a utilização de novas tecnologias digitais, combatendo a desinformação e outras ameaças.

No outro lado do oceano Atlântico, os EUA adotam abordagem “pro-inovação” em um movimento que redefine a política federal sobre inteligência artificial. A Casa Branca emitiu, em 7 de abril, dois memorandos (M-25-21 e M-25-22) com diretrizes que:

- Aceleram a adoção de IA nas agências federais, posicionando-as como “motor de competitividade nacional e domínio estratégico”, em linha com a Ordem Executiva 14179 do Presidente Trump;

- Reduzem controles regulatórios estabelecidos na era Biden, substituindo-os por uma abordagem “pró-inovação, pró-competição e de mentalidade de vanguarda”.

Principais mudanças:

1. Papel dos Chief AI Officers: tornam-se “agentes de mudança”, responsáveis por avaliar a maturidade de IA nas agências, rastrear investimentos em IA e priorizar sistemas desenvolvidos nos EUA;

2. Novas regras de aquisição (M-25-22): fim de relatórios burocráticos, contratos simplificados e baseados em desempenho. Exceções: agências devem justificar bloqueios a fornecedores. Proibições: uso de dados governamentais para treinar modelos de IA comerciais e cláusulas que limitem direitos do governo sobre propriedade intelectual ou dados de treinamento;

3. Supervisão preservada (com ressalvas) em aplicações de “alto impacto”, mantendo os mecanismos de transparência e a supervisão humana.

A medida reflete a visão da administração Trump de tratar a inteligência artificial como campo de disputa ideológica, com ênfase no domínio tecnológico contra rivais como China e UE, apostando na eficiência com corte de “barreiras regulatórias” para acelerar a implementação. A estratégia americana privilegia velocidade acima de tudo, transformando as agências federais em laboratórios de IA, eliminando exigências de transparência e avaliação de risco, e exigindo preferências por soluções americanas.

O dilema europeu, por outro lado, apesar da pressão por flexibilização, é inserir o continente entre os líderes de IA mantendo estruturas de governança robustas, exigir avaliações de impacto para modelos de alto risco, e investir pesado em infraestrutura soberana.

O risco de abordagens divergentes é fragmentar o mercado global de inteligência artificial, aumentar a pressão sobre empresas para desenvolver produtos distintos e potencializar a erosão de padrões éticos globais. Esse “duelo” moldará não apenas o futuro tecnológico, mas o equilíbrio geopolítico nas próximas décadas. A Europa aposta na qualidade e segurança, enquanto os EUA optam pela velocidade e escala. Ambas as perspectivas fragilizam a ilusão do determinismo tecnológico, ou seja, o impacto da IA nas transformações da sociedade requer decisões legais, de infraestutura, sociais e culturais que permitam sua adoção em larga escala, tornando-a verdadeiramente parte de nossas vidas.

Autor/Fonte: Dora Kaufman


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